As flores têm o perfume que a terra lhes dá

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Descrição

«E agora queria ou não assistir a isso? A minha tia demorou mais a perguntar do que eu a responder. Não, claro que não, e foi então que o Orfeu regressou do Inferno sem ver a Eurídice. Queria agora milagres que me metamorfoseassem num escritor. No momento em que pude escolher entre ser um poeta e um homem vulgar, escolhi ser um homem vulgar. Servi-me de tudo o que havia na mesa. Tentei mastigar o que tinha na boca. Descia com dificuldade na garganta. Dava-me gana de partir a pedra, abrir o caixão e olhar o cadáver, cheirar o podre em que a minha mãe se tinha tornado, porque ser vulgar é tão inútil quanto o é toda a poesia, com a desvantagem de se ser vulgar. Merda, devia ter olhado. O Orfeu também não pretendia salvá-la. Queria descer o mais fundo possível para cantar o mais fundo que há.»

Há acontecimentos que, pelo seu peso por vezes excessivo, pressupõem em si mesmos uma necessidade de mudança, para ser possível pôr as coisas — a vida — em perspectiva e, talvez, encontrarmos o nosso lugar no mundo. É essa a situação do protagonista de As flores têm o perfume que a terra lhes dá, que procura suportar as consequências que a doença da sua mãe lhe causa, ao mesmo tempo que tenta compreender a sua relação com os outros (e consigo próprio), sempre através da escrita. Como se de uma impiedosa descida ao Inferno se tratasse, este romance de Diogo Paiva mostra-nos uma representação impiedosa da realidade.

Informação adicional

Autor

Diogo Paiva

Editora

Antítese

Edição

Agosto de 2019

Encadernação

Brochado

Páginas

274

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